sábado, 11 de fevereiro de 2012

ANTOLOGIA DE TEXTOS FILOSÓFICOS: O CLÁSSICO EM SALA DE AULA

O uso do texto clássico em sala de aula permanece uma incômoda incógnita nas discussões sobre o ensino da filosofia. Há quem seja favorável, há quem apresente restrições e há quem rejeite completamente. Em 2009, a equipe de filosofia da Secretaria de Estado da Educação do Paraná tomou uma posição nesse debate: publicou uma antologia de textos clássicos de filosofia. A Seção

Filosofia na Escola ouviu os responsáveis por essa publicação e apresenta suas perspectivas sobre o uso dos textos dos filósofos nas salas de aula do ensino médio.

por Juliano Orlandi


Duas ideias sobre a investigação filosófica parecem ter triunfado no meio acadêmico brasileiro: a primeira afirma que o lugar privilegiado para encontrar a filosofia é o texto clássico, e a segunda, inevitável consequência da anterior, diz que, para filosofar, é preciso freqüentar as palavras dos filósofos. Essas perspectivas se irradiaram nas universidades brasileiras, sobretudo, a partir do intercâmbio com os filósofos franceses que lecionaram na Universidade de São Paulo em meados do século XX, muito embora, em alguns lugares do país, a origem dessas ideias remonte a outras tradições de pensamento. Seja como for, a preferência pela lida com o texto clássico implicou no embate com uma perspectiva de exposição filosófica bastante comum nas universidades brasileiras: era a tradicional perspectiva dos manuais de filosofia.

Não é uma tarefa fácil precisar a natureza e a origem dos manuais de filosofia que circulavam entre os estudiosos brasileiros. O termo “manual” é utilizado para intitular obras filosóficas de intenções e características muito diferentes. Se considerarmos, contudo, apenas os manuais que eram utilizados para o ensino da filosofia na época em que a missão francesa desembarcou, é possível delimitar algumas características básicas. Eles eram, em algum nível, materiais dogmáticos, privilegiando sistemas filosóficos em detrimento de outros. Theobaldo M. Santos, no prefácio ao seu Manual de Filosofia, explicava seu esforço como “uma síntese da filosofia tomista com os ensinamentos da ciência moderna”. Os manuais estavam ligados com maior ou menor intensidade à filosofia que se ensinava nas instituições católicas de ensino. E, finalmente, estavam orientados por perspectivas didáticas ou pedagógicas.

Para aqueles que estão hoje nas universidades, especialmente nos grandes centros, os manuais de filosofia são realidades distantes e sem qualquer relevância para suas atividades. Há certamente estudantes na graduação que sequer folhearam uma obra dessa natureza. Elas possuem, contudo, uma sobrevida num contexto diferente. Quando se trata do ensino da filosofia no nível médio, os manuais, recauchutados e com novas roupagens, ainda fazem sentir sua força e determinam amplamente a prática de muitos professores.

O professor Bernardo Kestring, membro da equipe de filosofia da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED – PR) de 2005 a 2010, lembra que, quando os professores da rede estadual eram reunidos para discutir as questões relativas ao ensino de sua disciplina, não era incomum encontrar aqueles que organizavam suas aulas com base em manuais de história da filosofia, tal como o de Giovanni Reale e Dario Antiseri. Estes materiais não correspondem exatamente aos antigos manuais de filosofia, mas guardam algumas semelhanças: são obras de caráter acentuadamente didático que pretendem apresentar a tradição filosófica de forma sintética e organizada.

O professor Kestring conta que, quando questionava os professores sobre o uso de textos clássicos em sala de aula, a resposta era predominantemente negativa e vinha acompanhada de inúmeras ressalvas à possibilidade de ensinar filosofia com esse tipo de material. O argumento mais comum consistia em acusar os textos clássicos de serem inacessíveis aos estudantes do nível médio. Ou porque a linguagem representava um empecilho ou porque a argumentação era ininteligível. De uma forma ou de outra, os professores estavam, em sua grande maioria, convencidos de que não havia espaço para o texto clássico nas salas de aula.

O exemplo do estado do Paraná nada mais é que o reflexo de um paradoxo que se estabeleceu por todo Brasil entre o ensino universitário da filosofia e o ensino escolar: o material rejeitado nas universidades, o manual de filosofia, predominava amplamente nas escolas. Se a filosofia, conforme a orientação francesa, está nos textos clássicos, é no mínimo questionável que os professores do ensino médio a procurem nos manuais didáticos. E esse questionamento se desdobra de diversas maneiras: é legítima a explicação de que os estudantes das escolas possuem uma incapacidade natural (própria de sua idade) para lidar com as palavras dos filósofos? É possível ensinar filosofia apenas com o discurso acentuadamente didático dos manuais? É, de fato, impossível a um estudante do ensino médio ler, compreender e interpretar um texto clássico de filosofia?

O professor Kestring e seus colegas na SEED – PR responderam negativamente todas essas questões e, em 2009, tentaram tornar o ensino escolar da filosofia mais coerente com o ensino universitário. Eles publicaram uma reunião volumosa de excertos de obras clássicas de filosofia destinadas ao ensino médio e a intitularam Antologia de Textos Filosóficos [1]. Em lotes que variavam de acordo com o tamanho dos colégios, ela foi distribuída nas bibliotecas escolares da rede estadual do Paraná com o intuito de se transformar num dos principais materiais para o ensino da filosofia.

O professor Jairo Marçal, organizador da obra, justifica sua publicação dizendo: “uma opção pelo caminho de supostas facilitações significaria a renuncia à própria Filosofia e, consequentemente, isso geraria uma desconfiança quanto à sua presença no currículo escolar. Filosofia deve ser Filosofia em qualquer nível de ensino.” Se, do ponto de vista acadêmico, ela deve ser procurada nos textos clássicos, no nível médio, não pode ser diferente. “O desafio consiste, afirma o professor Marçal, em saber dosar”.

Para explicar o que entende por “dosar”, o organizador da Antologia destaca suas preocupações no momento de confecção do material. “Em primeiro lugar, a escolha dos textos ou excertos que integram a Antologia foi realizada em função daquilo que fosse mais acessível aos estudantes do nível médio. Em segundo lugar, tivemos o cuidado de encomendar dos tradutores ou de estudiosos reconhecidos curtas introduções a cada um dos textos. O objetivo era apresentar informações de cunho biográfico ou histórico que pudessem ajudar na compreensão do texto e sugestões de temas, questões ou interpretações que pudessem ser desenvolvidas pelos professores em sala de aula.” O resultado desse processo é um material “didático” de filosofia bastante incomum no Brasil.
É interessante lembrar que uma publicação dessa natureza não é necessariamente excludente e que outros materiais didáticos podem ser utilizados concomitantemente. A equipe de filosofia da SEED – PR, além da Antologia, municiou os professores de sua rede estadual com um Livro Didático de Filosofia [2] e uma biblioteca para o professor, onde se encontra, por exemplo, a História da Filosofia de Giovanni Reale e Dario Antiseri. “A Antologia, afirma o professor Marçal, não é mais importante que os outros materiais, eles são complementares.”

Desse ponto de vista, o uso do texto clássico no nível médio de ensino não é um problema muito diferente do uso de qualquer material em sala de aula. A exigência consiste em reconhecer as circunstâncias e os meios para que ele se torne realmente significativo no ensino da filosofia. Este reconhecimento depende obviamente de um conhecimento sólido e rigoroso da tradição filosófica, mas também de uma sensibilidade para as dificuldades e capacidades dos estudantes.

Talvez fosse a falta dessas duas condições que tornavam os professores do Paraná tão descrentes no uso do texto clássico. Sendo assim, é legítimo imaginar que o ensino da filosofia a partir das palavras dos filósofos seja possível, uma vez que tais condições sejam criadas. Eis um desafio que se apresenta não propriamente às escolas, mas aos responsáveis pela formação dos professores, a saber, os cursos de licenciatura em filosofia. Se for legítimo generalizar o exemplo paranaense para o resto do Brasil, então a efetivação do ensino da filosofia a partir dos textos clássicos é algo que depende em grande parte das universidades brasileiras.
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[1] O material está disponível para download gratuito no endereço www.educadores.diaadia.pr.gov.br
[2] Disponível para download gratuito no endereço www.diaadiaeducacao.pr.gov.br
FONTE: FILOSOFIA NA ESCOLA

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