terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Filosofia no Ensino Médio



Texto escrito em 13 de julho de 2010.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

A Filosofia no Ensino Médio

Se há uma coisa que realmente me irrita é entrar em uma livraria e encontrar lá “A filosofia na sala de aula” ou “A filosofia para crianças e jovens” ou “Filosofando com alunos” etc. Não, não sou contra a disciplina “filosofia” na Escola Média. Ao contrário, fui das primeiras vozes a brigar por ela e escrevi na imprensa, em certas ocasiões solitariamente, o quanto deveríamos ler Platão na escola tanto quanto tínhamos de ler Machado de Assis ou saber as leis de Newton. O que traz dissabor são os livros que falam sobre o assunto e, no entanto, são escritos por pessoas que não se preocupam, elas próprias, em produzir algo em filosofia. Ou seja, é aquilo que os primeiros educadores do Movimento da Escola Nova no Brasil denunciavam: o beletrismo – fala-se sobre o assunto, mas não se fala no assunto. Traduzindo: uma boa parte dos que discutem na Universidade o “ensino de filosofia” nunca produziram um manual de filosofia ou história da filosofia que possa ser realmente utilizado pelo aluno. O resultado disso é parecido com as teses de ensino a distância: não param de ser produzidas por gente que até hoje nunca conseguiu fazer o próprio blog!

Prefiro fazer diferente. Sempre escrevi muito pouco sobre “filosofia no ensino médio”, mas, em compensação, pratiquei muito e produzi material de todo tipo para os “passos iniciais de quem quer filosofar”. Aprendi no cafezal a cuidar do café, dormindo na Senzala, não na Casa Grande. Daí eu extraí o que é o mais difícil de fazer na filosofia com jovens, e que é, também, no meu entendimento, o mais importante. Eis a coisa: trabalhar com os textos clássicos básicos dos grandes filósofos e articulá-los aos problemas cotidianos de cada aluno, para que a história da filosofia seja, na mão deste, um instrumento de colaboração para que ele enfrente melhor a vida e os próprios estudos filosofando.

Qual a razão disso ser difícil? Há três problemas aí, que às vezes ficam potencializados quando se casam: 1) inexperiência de vida do professor; 2) incultura do professor a respeito de história da filosofia a partir dos textos clássicos; 3) incapacidade do professor, ele mesmo, de filosofar com a história da filosofia. Eu poderia traduzir tudo isso em uma palavra que, aqui, não obedece a qualquer conceituação teórica: alienação. O professor aliena sua vida do que ele lê na filosofia e, por isso mesmo, não consegue em nenhum momento dizer para o aluno algo como “sabe aquele drama que você vive com sua namorada? Pois bem, experimente pensar isso a partir do trecho X do autor Y”. Ou assim: “sabe aquele assunto de matemática que você não consegue aprender? Tente ler o filósofo Z na obra W e veja o tipo de raciocínio que ele usa”.

Para agir assim, isto é, provocar o aluno para a solução de problemas a partir da filosofia, o professor precisa ser antes de tudo um filósofo. No entanto, não raro, ele é treinado (quando é) para ser um scholarscholar da filosofia. Vemos então vários jovens “fazendo” filosofia como trabalho de mestrado ou doutorado, ou mesmo de iniciação científica e, logo em seguida, fora disso, nem se preocupam se estão ou não agindo segundo o senso comum. Não contaminam a própria vida com a filosofia que estudam. Ora, uma vez na sala de aula do ensino médio, criam então alienados – espelhos do professor. da ciência, não um filósofo. Um cientista pode não fazer metaciência. Pode trabalhar em uma indústria e não ter nenhuma visão global da ciência e nenhuma compreensão maior desta na sua relação com a ética. Um tipo de formação em ciências já se consagrou assim, principalmente a partir do final do século XIX. Mas é muito estranho que esse tipo de formação tenha contaminado a própria filosofia, isto é, a formação do filósofo e do

Longe da minha mente a idéia de querer o professor engajado doutrinariamente para substituir o alienado que apontei. Não! Não quero um remédio que mate a doença por ter eliminado o doente. O professor doutrinário faz um serviço até pior que o alienado. E isso tanto à direita quanto à esquerda. O que quero é que o alienado (o doutrinário não tem cura!) saia dessa situação e comece a tentar, ele próprio, um processo de investigação de sua vida, para saber em que momento o que ele leu em filosofia começou a ir para um lado, e as práticas de sua vida para outro. Caso ele consiga achar esse início do fio do novelo, ele pode não resolver as coisas para si mesmo de modo rápido, mas ele já vai estar apto a ver no aluno em que momento ele, aluno, também está fazendo a mesma coisa. Ora, disso pode nascer um bom professor. Um professor jovem que começa a reestruturar sua vida para que esta se guie pela filosofia, pode incentivar o aluno a se envolver em aventura semelhante.

Nesse trabalho, nada melhor do que começar pelo começo. No ensino médio, a filosofia antiga dá tudo o que é o necessário para um jovem filosofar. Os pré-socráticos, Sócrates, Platão, Aristóteles e a filosofia helenista – para que mais? Os instrumentos que esse tipo de filosofia dá já são bem mais do que se pode aprender no ensino médio. Eles são bem suficientes para que um jovem comece a tomar toda a sua vida (do que vai comer ao que vai ler) como alguma coisa que pode ser feita de modo melhor se levada a cabo por meio da reflexão filosófica – alguma reflexão filosófica.

Vou dar um exemplo banal, ocorrido recentemente comigo em conversa no twitter. Uma garota de menos de 19 anos ia convidar seu namorado para o cinema, e me perguntou o que eu havia assistido naqueles dias. Eu disse que tinha ido ver o último filme do Tarantino, “Inglourious Bastards”. Bem, dado meu prestígio perante a menina, ela pegou a minha sugestão e, enfim, lá foram eles para o cinema. Voltando, é claro que ela veio comentar comigo a fita. Conversa vai e conversa vem, ele disse que achou estranho que o filme não tivesse conservado o Hitler. Bem, ali estava o gancho esperado pelo filósofo. Perguntei para ela o que havia sentido no filme, como ela saiu do cinema. Ela respondeu rapidamente: “aliviada”. E mais: “foi a primeira vez que fui num filme de guerra, de sangue, e saí … aliviada!”. Investiguei com ela outras vezes em que havia experimentado aquele tipo de sensação e, enfim, não foi difícil, após algumas trocas dos meus sentimentos com os dela, dar-lhe oportunidade de se lembrar de uma noção que havia aprendido na escola: catarse. Perguntei se tinha a ver com alguma aula ligada à psicologia e ela disse que não, que era uma aula de filosofia, onde leram sobre o teatro grego e sua função catártica. Pronto! Era o que eu queria. Ela havia chegado no ponto! Ela havia acabado de conseguir nominar um seu sentimento com os elementos do ensino erudito da aula de filosofia. É claro que, com outra pessoa, a discussão tomaria outro rumo e ela, talvez, não chegasse a essa reflexão e auto conhecimento. Mas, uma vez junto com o filósofo, e tendo tido um apoio da escola, do seu professor de filosofia, ela chegou.

Agora, não é necessário parar neste ponto. E eu não parei. Fui trocando informação e fazendo um pouco o jogo socrático, o de colocar teses, fazê-la aceitar e, enfim, mostrar que ela seria refutada ao aceitar. Com isso, o filme foi sendo esmiuçado. E eu tentei tirar dela o que poderia ter acontecido no filme que atrapalharia a catarse. Demorei um pouco nisso, mas arranquei dela uma resposta razoável, com a qual concordo. No filme, há uma judia que quer se vingar dos nazistas, e ela vai usufruir da catarse com o público. Mas Tarantino quer dar exclusividade da catarse ao público e só ao público. Então, na hora H da vingança, ela, a judia, morre. E o gozo vingativo dela sobra apenas para o público, que vê a vingança ter continuidade sem a presença do vingador. Bem, nesse caso, a menina minha interlocutora já havia saído do exame de sua condição catártica. Ela já havia deixado a posição de quem vê o filme e, com ele, parte para o autoconhecimento. Ela havia voltado, comigo, para o filme, ganhando uma forma de vê-lo de um modo superior. Ou seja, nesse segundo momento, ela já estava, comigo, avaliando a técnica de Tarantino.

Caso o leitor não tenha visto o filme, assista e depois volte a este meu texto, para melhorar o entendimento. Mas, o resumo do procedimento que utilizei é este: o eixo que vai do cotidiano para a filosofia e desta para a vida pessoal para, em seguida, voltar ao que se viu no cotidiano e elevá-lo a uma nova leitura. Esse tipo de trabalho eu organizei em passos que, com nomes apropriados eu coloquei, entre outros lugares, no novo O que é Pedagogia (o de 2007). Acho que servem perfeitamente para o professor de filosofia. É isso.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

http://portal.filosofia.pro.br/

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